O mundo evolui, mas, às vezes, também retrocede.
Nossos antepassados aprenderam, sentindo na
própria pele, literalmente, como construir aproveitando os materiais
disponíveis e desenvolvendo técnicas para melhor adequá-los ao
meio-ambiente local. A análise das principais características de
construções antigas, de várias regiões do mundo, demonstra que esse
empirismo gerou resultados bastante eficientes, que, teorizados e
sistematizados, hoje integram os conceitos da chamada “Arquitetura
Bioclimática”. Infelizmente, eles andaram esquecidos por muitos anos,
preteridos por concepções arquitetônicas ou empresariais, que
privilegiavam mais a forma e o lucro, que a funcionalidade e conforto
ambiental. O resultado foi a produção, em larga escala e por vários
anos, de torres, “caixotes” ou “esculturas”, cuja preocupação
alternava entre o mais barato e discreto, e o mais caro e chamativo
possíveis. Ao mesmo tempo, ocorreu um distanciamento técnico
progressivo entre os principais atores do processo: arquitetos e
engenheiros; agravado pela inflação de empreendedores leigos no
mercado da construção civil. Os projetos passaram a ser importados ou,
simplesmente, copiados. A única semelhança entre esses extremos
consistia na falta de conforto ambiental, compensada, por quem podia
pagar, por um elevado e progressivo consumo de energia.
Só que um conceito não invalida, em absoluto, o
outro! Tanto que, hoje, a evolução tecnológica, tanto de materiais
quanto de sistemas, aliada às preocupações ambientais, tende a
reaproximar técnicos e empreendedores. A nova meta é conciliar
estética, funcionalidade e eficiência energética e, principalmente,
custos de produção e manutenção racionalizados. Em suma, o mercado
tende ao BBB: Bom, Bonito e Barato, com algumas variantes de estilo.
Mas... E as construções antigas? Dinamite nelas?
Bom, em alguns casos até que mereciam, só que,
em tempos de Bush e Bin Laden, explosões em série não seriam muito bem
recebidas... Mas para tudo tem um jeito, que vem na forma de técnicas
de atualização estética e tecnológica de edificações. O “retrofit” –
como é conhecido – pode corrigir falhas de concepção, bem como agregar
novos materiais e tecnologias ao imóvel. Assim: fachadas podem ser
incrementadas com sistemas que reduzam a transferência de calor para
os ambientes internos; instalações elétricas arcaicas podem dar lugar
a cabeamentos estruturados; vidros e películas podem aproveitar,
convenientemente, as diferentes radiações solares; as águas servidas
podem ser recicladas e as águas de chuva aproveitadas; sistemas
inteligentes podem auxiliar na segurança e economia de recursos; e,
por aí, vai...
Isto representa um enorme salto de qualidade! Só
que na construção civil, como nas dietas para emagrecimento, o
cardápio deve ser balanceado e personalizado. Afinal, não se trata de
dar, apenas, “um banho de loja” na edificação ou leva-la ao palácio
dos espelhos. Trata-se de um SPA construtivo, que envolve estudos
multidisciplinares e integrados, além de exigir atualização constante
de conceitos, técnicas, equipamentos e materiais. Caso contrário
estaremos incorrendo no mesmo erro de repetir fórmulas ou modismos, de
resultado efêmero e impacto negativo no mercado.
O cliente também muda de perfil: sai o empreendedor e entra o
condômino!
Com essas variáveis, só há duas maneiras de
justificar o dispêndio necessário: valorização do imóvel ou economia
operacional. Mesmo assim, a decisão ainda depende do período de
retorno do investimento. No caso do “retrofit”, ambos podem ser
conciliados, otimizados e “bem vendidos” mediante bons projetos.
Resumo da ópera: Estamos diante de um imenso,
ávido e ainda pouco explorado mercado. Para atende-lo é preciso saber
trabalhar em equipe e estar atualizado com o “estado da arte”, para
melhorar o estado da obra do cliente.
Materiais e sistemas inteligentes e econômicos estão à
disposição! Eles podem, até, ser importados ou copiados. Mas a
criatividade e inteligência dos técnicos têm que ser nossas?