Ao longo dos anos quem trabalha acaba entendendo na
prática e a duras penas aquela velha estória que explica a valorização
do ovo da galinha em detrimento ao ovo da pata. Nestes 15 anos de
prevenção de acidentes tendo a oportunidade de desenvolver atividades
continuamente no chamado chão de fábrica e ao mesmo tempo participar e
acompanhar os grandes debates relativos da área entendo que há
necessidade de urgentemente juntar as duas prevenções de acidente – ou
seja – a prevenção do dia a dia – feita pelos chamados SESMT e a
prevenção teórica discutida e tratada por aqueles que mesmo com muita
boa vontade e conhecimento pouco ou nada conhecem sobre a realidade
desta área. Esta dicotomia – que em nosso pais não é um privilegio da
área prevencionista - ao longo do tempo prestou uma serie de
desfavores que por fim veio a atingir mesmo aos operários contribuindo
em alguns casos para a involução da segurança e saúde no trabalho. Não
creio que de fato exista de qualquer uma das partes algum tipo de
intenção de causar danos, vejo mesmo até certa boa vontade – no
entanto longe vai o tempo onde apenas boa vontade tinha algum valor.
Independente do que venha acontecer no futuro –
neste momento difícil de precisar já que as negociações relativas a NR
4 ainda encontram-se em temas de fácil acordo – é importante que nos –
os profissionais que conhecemos a esquina onde a prática encontra-se
com a teoria estejamos atentos acima de tudo como especialistas e como
cidadãos para que não se faça deste segmento algo inviável e
especialmente que não se remeta a questão da vida e saúde para um
campo de interesses nebulosos. Notoriamente, os problemas de segurança
e saúde no Brasil não estão na legislação – reconhecida pelas vozes e
mentes mais conscientes da comunidade prevencionista deste pais como
moderna e adequada. Difícil supor que as nossas NR não cumpram seu
papel, quando na verdade em boa parte dos locais de trabalho elas não
são cumpridas. Sabemos – não por informações e notas – que nas
empresas onde os programas de segurança são efetivos – e estes
elaborados a partir das NR – o índice de prevenção mostra-se em muitos
casos superior ao obtido em paises do chamado primeiro mundo mesmo que
tenhamos por aqui máquinas obsoletas e outras condições um tanto
quanto complexas. Com certeza podemos dizer que é verdade que o modelo
do SESMT do Brasil deu certo mas é claro que não nos referimos a
teoria do SESMT e sim a sua aplicação na prática e por toda sua
extensão. Penso que seja preciso coragem para partirmos em direção a
um estudo onde seja possível mostrar a evolução da prevenção em dois
modos distintos, sendo o primeiro no segmento de pouco menos de 2 %
das empresas instaladas no Brasil que mantém o SESMT e o segundo nas
demais empresas. Dizer ou afirmar que o SESMT não contribuiu ou
contribui para a melhoria das condições de segurança do trabalho em
nosso pais sem que seja feita esta avaliação é algo pelo menos
tendencioso e sem qualquer validade estatística.
Tenho em mãos as estatísticas de 12 grandes
empresas que atuam no Brasil. Sem exceção em todas elas os números
mostram que alguma coisa mudou. Numa comparação simples fica fácil
entender que estas empresas tal como outras tantas ao longo dos
últimos estiveram expostas a todo tipo de pressão dos fatores
externos. De diferente, encontro apenas que estas empresas cumprem a
NR 4 e mantém em seus quadros grupo de profissionais prevencionistas
atuantes. Obviamente sei também que estas empresas passaram na ultima
década por alguns momentos com problemas relativos a prevenção.
Estudando os casos, encontramos momentos da história da relação
capital – trabalho que tiveram forte influencia, casos como a abertura
com poucos critérios das terceirizações por exemplo. Vale aqui citar a
situação pela qual passa uma grande e conhecida empresa nacional – que
no passado recente era referencia em termos de prevenção de acidentes
mesmo quando comparada com outras similares do chamado mundo moderno.
Até onde sei desde muito a atividade desenvolvida por esta empresa
enquadra-se no rol das atividades industriais de maior risco, mas
também sei que durante muito tempo não se tinha noticias de acidentes
mais graves em suas instalações.
É fato – possível de constatação quando estudado
– que nas empresas onde o SESMT foi estabelecido o padrão de segurança
e saúde ampliou-se e consolidou-se. Tal constatação pode ser feita com
facilidade desde que levado em conta o bom senso.
O QUE NINGUÉM VÊ
Alguém precisa dizer para algumas pessoas menos
avisadas que estamos no Brasil. Esta é uma premissa essencial para
qualquer debate que queira ter a seriedade como base. Alguém precisa
um dia falar com seriedade sobre as coisas que fazemos aqui e deixar
de vez por todas de tentar impor que ou adotamos modelos externos ou
não sobreviveremos. A prevenção de acidentes brasileira é com certeza
uma das áreas que mais evoluiu nas ultimas décadas. O formato dado ao
SESMT, CIPA e outras iniciativas tomadas nesta direção é compatível
com a cultura de nossa gente, com a necessidade de estabelecer um
processo educativo e cultural capaz de corrigir erros grosseiros na
nossa estrutura porquanto sociedade industrializada. Não quero dizer
com isso que tal estrutura ou modo de gestão para o assunto deva ser
definitiva – creio que um dia chegaremos ao tempo onde de fato como em
tudo na evolução tenhamos necessidade de rever o modo atual. No
entanto, no presente momento de nossa história mudar este modelo é
pelo menos temeroso. Primeiro porque não temos ainda no seio de nossa
sociedade uma cultura mais arraigada com relação ao real conceito de
saúde. Vivemos ainda num pais onde é possível a troca de saúde por
adicionais e isso ocorre num momento econômico onde tais adicionais
fazem muita diferença nos ganhos dos trabalhadores. Apenas este fato
por si já demonstra a imaturidade de alguns envolvidos na questão e
nos levam a ter duvidas de como irão portar-se caso tenham para si a
responsabilidade de tratar o assunto. Ora, é preciso que fique claro –
em especial para aqueles que distante de tendências queiram de fato
entender o assunto – que não foi e nem é o SESMT que se empenha para a
manutenção e obtenção destes adicionais – antes – ao longo dos anos os
SESMT se empenharam e tem conseguido trabalhar em prol da eliminação
dos riscos. Isso é um fato palpável em muitas empresas por todo o pais
e em alguns casos com soluções de tal forma criativas que já há algum
tempo vem sendo adotadas em outros paises que se espelham na nossa
Engenharia de Segurança para encontrar soluções para seus problemas.
Questão de prevenção de acidentes no Brasil,
passa como todas as demais questões estruturais, como assunto que
carece de ser olhado com seriedade. Quando deparamos com as noticias
de acidentes fatais nos jornais que lemos chama a atenção uma questão
das mais interessantes: Não falta know how para que tais acidentes
sejam evitados – a grande maioria deles ocorre pela inobservância de
questões primárias da prevenção. A maior condição insegura deste pais
é a certeza da impunidade que tem lugar comum ao lado de todas as
demais barbáries que vemos. É certo que por todo mundo acidentes –
situações inesperadas ou não programadas – ferem, mutilam e matam. Mas
também é certo que há muito tempo nos paises evoluídos acidentes como
o que vemos em nossos noticiários deixaram de ocorrer na quantidade
que ocorrem por aqui. Isso já é uma realidade dentro das empresas onde
os SESMT atuam e de certa forma cumprem o papel da autoridade. Nos
demais locais de trabalho – de onde as autoridades e a justiça
mantem-se distantes não seria a falta do SESMT algo a ser pensado ?
Ontem li nos jornais o caso de mais um acidente
fatal, onde o trabalhador veio a cair de uma obra de um prédio em SP.
Na própria noticia – escrita por alguém que não tem qualquer
conhecimento mais profundo de nossa área – está explicito que o
empregado não tinha qualquer tipo de equipamento de segurança. Todos
os dias tomamos conhecimento de casos assim, mas há muito tempo – se
prestarmos atenção – não temos mais noticias deste tipo – ocorridos
dentro de empresas de grande porte. Será que os telhados e fachadas
destas empresas - algumas delas com mais de 4 mil empregados em
constantes obras, tem alguma diferença destas que encontramos em cada
esquina deste pais ?
Parece-me simplório demais não querer ver a
realidade. Seria importante que neste momento estivéssemos discutindo
– como há uma proposta em estudo – a universalização do SESMT.
Tratando disso com certeza estaríamos prestando um grande favor ao
pais e sua gente. Pode ser que isso incomode alguns segmentos – sem o
profissional especializado para dar parâmetros ao debate – a tratativa
das questões de segurança e saúde podem ser conduzidas sem qualquer
critério para o campo do negocio onde na maioria das vezes não há
qualquer interesse real pela saúde e segurança das pessoas. No entanto
– e preciso que aqueles que tanto defendem os modelos vindos do
exterior tenham coragem de dizer que em muitos paises modernos do
mundo isso é uma realidade. Dia destes, auxiliando na tradução técnica
de uma auditoria de um sistema de gestão vinda de um destes paises
constatei que a primeira pergunta era exatamente quanto ao
estabelecimento receber algum tipo de suporte especializado sobre
segurança e saúde – isso independente do numero de empregados ou grau
de risco. Tal questão – em meio a uma calhamaço de questões relativas
a certificação para um dado sistema, quando não atendida, implicava na
não certificação.
Eis ai mais uma questão que ninguém quer ver:
onde ocorrem os acidentes do trabalho no Brasil ? Nas empresas com
SESMT ou nas 98 % das empresas que não tem qualquer tipo de cobertura
especializada ? Não é preciso estatística, basta ler jornais todos os
dias. Basta participar de grupos sociais de sua comunidade e
lamentavelmente constatar que o grupo de mutilados e inválidos já não
passa desapercebido. Basta tomar ciência que em SP criou-se a
Associação das Viúvas de Mortos por Acidentes na Construção Civil. Dê
uma volta no quarteirão de sua casa e veja quantas obras encontra sem
qualquer cuidado de segurança.
OS CAMINHOS DO FUTURO
Os caminhos que hoje vemos pela frente, no meu
entendimento não se mostram consistentes a ponto de levarem a todas as
mudanças sobre as quais ouvimos falar. Tentar colocar num mesmo
momento o fim do SESMT dentro das empresas e a privatização do seguro
acidente e ir de encontro a uma realidade que vai causar muitos
problemas. Hoje, todas estas deficiências e buracos que vemos no modo
de gestão do assunto em muitos casos acabam não onerando a empresas
devido a postura paternalista e sem gerenciamento da previdência
pública. Com isso quero dizer que parte do buraco deixado pela
ausência e falta de atuação do prevencionista nas empresas é assumido
e pago pelo Estado deixando parte do empresariado sem muitas
preocupações com o assunto. Em suma, é possível não pagar pela
prevenção porque também não se paga pela falta dela. No entanto, no
momento em que estivermos diante destas seqüelas tratadas como parte
de um negocio – que como todo negocio deve dar lucro – estaremos
diante de um grande centro de conflitos. Penso que pouca gente se deu
conta disso. Para garantir menores custos com seguros as empresas irão
precisar mais do que nunca do SESMT e a retirada deste dos locais de
trabalho – seja pela criação do suposto SEST Coletivo ou algo assim –
será mais uma grande desfavor ao cidadão que ao final de tudo estará
mais vez – se o rumo das coisas não for mudado – arcando com o repasse
dos custos nos produtos – para pagar pela falta de condição de
segurança nos locais de trabalho. Ou seja – a mudança do seguro
acidente e o afastamento simultâneo do SESMT dos locais de trabalho –
serão pagos com certeza por todos nós.
Para evitar isso – que com certeza será a saída
encontrada – há necessidade de trabalharmos a transição do modelo
atual do SAT para o privatizado com a manutenção e ampliação dos
Serviços Especializados em Segurança e Saúde. Talvez seja este o
modelo correto para o Brasil.
Portanto, cabe-nos contribuir – tanto pelos
interesses da prevenção essencialmente dita, como pelos interesses
gerais do pais, para que o debate hoje em curso sobre a NR 4, encontre
resguardo na contribuição que conduza a decisão ao interesse geral.
Nenhum debate ou nenhuma decisão que não leve em conta as questões
culturais – seja do empresariado – seja do trabalhador – irá de
encontro a soluções e propostas que façam frente a realidade.
Neste momento, o papel do prevencionista como
quem pode oferecer subsídios para um debate mais realista – torna-se
de suma importância. Precisamos dizer a comunidade em geral, aos
grupos sociais organizados e as cabeças que dirigem este pais – sem
fazer aqui trocadilho – o rumo mais seguro para este assunto.
Com a palavra o especialistas práticos – que ao
longo dos anos mostraram-se tecnicamente por demais capazes, mas
politicamente verdadeiras nulidades.