Tal como os demais grandes problemas nacionais - onde com
certeza a questão prevencionista está inserida - a questão da
segurança e saúde no trabalho encontra-se neste momento em uma das
encruzilhadas do processo histórico. Há necessidade de buscarmos novas
formas de atuação, as quais apenas serão validas se houver uma ampla e
consciente discussão sobre o tema com a participação ativa de todos
aqueles que de fato conhecem o assunto. Mais do que isso, para que
este momento conduza a um futuro melhor é preciso rever muito mais do
que técnicas e normas as questões culturas relativas ao assunto.
Por toda parte vemos o ressurgimento de velhos debates revestidos
com a roupa do novo. Lamentavelmente notamos que a grande maioria
deles passam distantes da verdadeira realidade e prestam-se na maioria
das vezes apenas reformulação do modelo vigente com tendências a
flexibilização das responsabilidades. Há como sempre houve o
desconhecimento do obvio: Apenas leis não bastam ! Culturalmente
vivemos no país onde leis prestam-se apenas a poucas situações e que
as relações - na sua forma sólida e respeitosa - precisam ser
construídas passo a passo. Em todo o processo e ao longo dos anos a
presença do SESMT foi de grande valia para este enfoque, trazendo para
o debate entre as partes a luz do conhecimento técnico - que nestes
casos - é essencial a consecução dos objetivos - e de certa forma faz
frente aos descalabros com que se trata assunto de tamanha
importância.
O primeiro passo para que esta discussão e busca tenham alguma
validade passa pela coragem de questionar quais são as reais causas do
problema. Obviamente para que encontremos algumas respostas válidas e
que possa assim ser base para planos de correção realistas é preciso
que ocorra rápida e grande evolução nos conceitos que muitos ainda
adotam e difundem. Enquanto nos mantivermos presos aos paradigmas com
certeza nada irá ocorrer de novo e capaz de alterar a realidade que
conhecemos. Enquanto permitirmos que os temas sejam tratados mais com
o enfoque político do que técnico, com certeza estaremos perpetuando o
estado de coisas tão bem conhecido. Na minha forma de ver, o primeiro
passo a ser dado para modificar estado de coisas e a mudança de
postura dos profissionais do SESMT, que necessitam urgentemente deixar
de ser o especialista apenas dentro dos locais de trabalho e assumir
de vez por todas seu papel como interlocutor do assunto, como
especialista e conhecedor, trazendo a tona subsídios para uma
tratativa mais realística dos temas. Ao longo dos anos, temos sido
omissos nesta forma de atuação, em certos momentos parece que não há
no pais um segmento tão grande com capacidade e conhecimento para
fazer chegar a comunidade em geral seus preceitos e conhecimentos que
com certeza são por demais úteis a vida de cada um. Reside ai um
grande erro. Talvez pela nossa omissão, outros se sintam no direito de
dizerem - e na forma equivocada - qual o molde adequado para a questão
prevencionista. Não se trata aqui - e todos sabem como sou contrário
ao corporativismo doentio - de gerar e defender nichos de trabalho,
antes, trata-se de assumir dentro do contexto social um espaço de suma
importância e muito mais do que isso, uma espaço necessário a ordem
das relações gerais. Nós somos os especialistas no assunto e como tal
devemos nos fazer representar. Ao contrário disso, ocorre talvez por
nem mesmo entendermos a dimensão daquilo que fazemos e podemos fazer,
o verdadeiro horror e descaso que passa por detrás da questão dos
acidentes, ocorram eles em qualquer lugar que seja.
A partir da ocupação do espaço dentro da sociedade, cabe-nos também
a busca - como especialistas e cidadãos - no debate político da
regulamentação das coisas de nossa área. Ao longo dos anos, insistimos
- talvez ate pelo volume de necessidades e urgência das ações - em
pautarmos nossos trabalhos limitados aos nossos segmentos. Conheço
inúmeros bons profissionais que trazem em si a qualidade de
experiências e conhecimentos que seriam por demais úteis se fossem
formalizados como referencias comuns. No entanto, pecam quando se
ausentam da macro discussão, deixando este fórum aberto para outros
que nem sempre trazem em si conhecimentos e vivência necessárias ao
desenvolvimento de referencias ao menos aplicáveis a realidade
brasileira. Portanto, ou começamos a adotar posturas de cidadania com
relação ao que fazemos, ou de vez por todas, abandonamos a prática das
reclamações.
Como se pode ver, apenas neste primeiro momento encontramos dois
problemas relativos a cultura que o próprio SESMT tem em relação ao
assunto. Por mais distantes que pareçam, são problemas como estes que
inibem o crescimento da causa prevencionista. Já passou longe a hora é
a vez de assumirmos nosso lugar dentro da sociedade como um todo.
COLECIONANDO EQUÍVOCOS
Para muitos de nossos colegas de área, atuar na Área de Prevenção
de Acidentes é pura e simplesmente aplicar as técnicas e normas ao
local de trabalho. Tais pessoas não conseguem ainda visualizar a
riqueza de uma área técnica e suas possibilidades. Muitas delas
orgulham-se de viver em eterno conflito com as demais áreas e talvez
por isso sintam-se verdadeiros xerifes para a causa, como se tivessem
a capacidade ou mesmo a atribuição de serem os donos do tema.
Trabalham no varejo e passam a vida toda resmungando e atribuindo a
terceiros o insucesso de nossas atividades.
É preciso que entendam qual é na verdade o real papel de uma
especialista. Talvez a partir deste momento de compreensão, passem nos
primeiros dias por uma verdadeira crise de identidade, sentindo-se
talvez ainda menos importantes. No entanto, se estiverem atentos, com
o passar do tempo poderão vislumbrar que também para nós há um lugar
ao sol. Deve ficar claro, que mesmo a NR 4 - na sua definição de
quadro para o SESMT, demonstra que o número definido de profissionais
- em muitos casos na proporção de 1 Técnico para 500 empregados,
inviabiliza este tipo de atuação. Portanto, devemos buscar formas de
atuação mais sistematizadas ou em português mais claro, mais
inteligente.
O rol de equívocos é muito grande. Há também aqueles que sentem-se
os arautos da lei, parecendo mesmo esquecer que as demais pessoas são
alfabetizadas e que sua utilidade está assegurada não por saber ler ou
informar, mas por saber transformar itens de lei em práticas de
gerenciamento, ao invés de mero arauto, cabe melhor ser interprete,
profissional capaz de transferir as letras da lei em situações e fatos
aplicáveis, traduzir necessidades em propostas, ser para o Executivo
um verdadeiro Assessor e não um lastimável fiscal. Ter condições de
sentar numa mesa de decisões e contribuir ali como o homem da
prevenção, de igual para igual com os demais especialistas.
Ao longo dos anos, a imagem do Técnico de Segurança tornou-se tão
distante do que ele deve e pode ser, que de fato sua utilidade -
nestes moldes - passa a ser questionável. Pagar alguém para tomar
conta se os outros usam ou não EPI - já paga-se aos Supervisores.
Pagar alguém para ficar distribuindo copias de leis e normas - muitas
empresas já assinam bons informativos. O diferencial certamente está
em alguém capaz de resolver problemas ou propor meios e estratégias
para tanto. Se você está for a deste foco, tenha certeza que contribui
muito para que a prevenção de acidentes não saia do lugar onde se
encontra. Se quiser entender melhor o assunto, por algum instante que
seja, coloque-se no lugar de quem paga seu salário.
Eis aqui um ponto que muito me preocupa. Depois de todos estes anos
atuando na área, passei a chamar de Cultura do Não a postura que a
grande maioria de empresas e seus chefes tem com relação a questão de
segurança e saúde. Parece algo impalpável, mas na verdade tenho
certeza que a grande maioria de nós já presenciou ou ao menos ouviu
falar sobre fatos desta natureza. A cultura do não manifesta-se e é
comprovável até mesmo nas ações oficiais. Basta prestar atenção.
Recentemente, lendo um belíssimo livro que um Sindicato aqui da
Grande São Paulo organizou e vem publicando nos últimos anos,
chamou-me a atenção quando em dado capitulo apresentam uma serie de
relatos sobre acidentes ocorridos. Como Técnico, encontrei nestes
acidentes uma série de informações interessantes, no entanto o que
mais chamou a atenção e que em quase todos os casos descritos - todos
tendo incapacidade permanentes ou mesmo morte como conseqüência - a
correção da causa se deu logo em seguida ao ocorrido, seja através da
instalação de um pequeno pedaço de chapa, de uma grade, enfim de
coisas absurdamente simples e com custo irrisório. Isso quer dizer,
que se houvesse de fato algum tipo de preocupação com as normas ou
mesmo com a vida, tais acidentes e suas conseqüências seriam
plenamente evitáveis, sem que para que isso houvesse necessidade de
qualquer recurso maior. Porque isso não ocorre : Pela cultura do não,
pela forma absurda de não querer fazer pura e simplesmente.
Observem com mais detalhes e verão isso em muitos locais de
trabalho. Notarão que ao longo dos anos, sabe-se lá porque, muitas
pessoas desenvolveram um alto grau de rejeição com a questão da
prevenção. Superficialmente talvez isso diga respeito a sensação de
poder - ou seja - eu mando ! e Se não fui eu quem mandou fazer,
ninguém vai fazer porque não quero. Ou numa forma variável - Na minha
área mando eu ! Pode parecer estranho, mas isso existe e a quantidade
não é pequena.
Para dar vida a este tipo de cultura, simultaneamente vemos dia
após dia a impunidade. Vivemos ainda encobertos pela mística do termo
acidente - do qual muitos se servem para encobrir verdadeiros
homicídios. Precisamos educar nossas autoridades - e também sobre isso
que falamos lá no inicio deste texto - fazer ver que acidente é algo
imprevisível, que surge de uma conjuntura de fatos e ações que não foi
possível precisar e ao mesmo tempo, que deixar uma engrenagem sem
proteção nada tem haver com acidente, tudo tem haver com omissão seja
em relação as leis - claras para este tema - seja em relação ao
respeito a vida - assunto ainda meio obscuro em nossos dias.
Em certo ponto do processo das relações sociais, a questão da
segurança e saúde se confunde com todas as demais questões que dizem
respeito a preservação da vida humana. Enquanto existir possibilidade
de justificar o injustificável - mesmo que diante da mais evidente
prática da cultura do não - caminharemos assim, vendo que o trabalho
matar, não naquilo que tem de sofisticado e por isso merece mais
estudos e interpretações - mas nos rudimentos do conhecido, nos
rudimentos do normalizado que jamais se cumpre pela certeza de que
ocorra o que ocorrer - a impunidade falará mais alto.
E diante desta cultura que devemos fazer frente. São estes os fatos
que nos levam a crer que apenas a atuação rotineira da prevenção
jamais será capaz de mudar a situação atual. Precisamos interpretar
todo o contexto histórico do assunto e se desejamos mudanças
verdadeiras, atuar em todas as frentes - seja como profissional seja
como cidadão - ou na condição ideal de profissional-cidadão.
Acima de tudo, precisamos romper com nossa participação dentro da
cultura do não, deixando de dizer não a prevenção como todo e enfiando
a cara no buraco como avestruz que acha fazer o bastante mas limita-se
apenas a fazer o mínimo, olhando e tendo consciência de que quando um
trabalhador morre, morre também ali um cidadão.
Enfim, ou despertamos para o todo do assunto, ou continuamos apenas
sendo os arautos das leis que outros fazem e os fiscais daqueles que
poucos cumprem.