A globalização demorou, mas está chegando em ritmo
intenso ao segmento de fôrmas. Pelo menos seis empresas gigantes dessa
área estão aportando no Brasil, diretamente ou por meio de associação
com empresas nacionais, trazendo tecnologia, equipamentos e formas de
pagamento e locação pouco comuns até então.
As fôrmas respondem por cerca de 45% dos custos
da estrutura em obras prediais. Movimentam portanto grandes somas e
esse é, certamente, o maior argumento para que empresas dos EUA e da
Europa estejam chegando ao Brasil, quase simultaneamente, desde 1996.
Na bagagem, essas empresas trazem equipamentos e tecnologia com
certificação, métodos inovadores de comercialização e muita vontade de
fincar o pé no mercado mais promissor do Mercosul. Os sistemas
industrializados – fôrmas e cimbramento – recorrem em sua maioria ao
aço e ao alumínio como arcabouço estrutural e às chapas compensadas da
Finlândia, mais espessas e com revestimento de gramaturas não
disponíveis no Brasil até há pouco tempo. O passaporte desses sistemas
é a promessa de multiplicar por dez ou 20 vezes o reaproveitamento de
fôrmas tido como usual nas obras brasileiras. O incremento de
reutilizações caminha em paralelo ao aumento de produtividade, mas os
técnicos advertem: se não houver um consistente planejamento da obra,
a economia pode ir pelos ares. “Se a construtora contrata sistemas
pré-fabricados de fôrmas, de qualquer tipo, mas não planeja o fluxo de
materiais e as etapas seguintes, pode perder toda a economia obtida
pela produtividade do equipamento, que além disso custa mais caro”,
assegura o engenheiro e professor da Poli-USP, Ubiraci Espinelli de
Souza, cuja tese de doutoramento, desenvolvida nos EUA (veja box), foi
um trabalho para medir a produtividade da mão-de-obra na construção
civil em relação a diversos fatores, entre eles os sistemas de fôrmas.
Segundo ele, a chegada das empresas estrangeiras de fôrmas deixa o
cenário brasileiro mais parecido com o norte-americano, que em matéria
de construção oferece inúmeras alternativas de sistemas e materiais.
O engenheiro e consultor de fôrmas Paulo
Takahashi, especialista em sistemas pré-fabricados de madeira e autor
de projetos complexos – entre eles o do Memorial da América Latina
(São Paulo) e de algumas etapas da ampliação do shopping ABC, em Santo
André-SP –, avalia que a chegada de novos equipamentos e sistemas, em
sua maioria metálicos, pode ser alternativa à madeira, “cada vez mais
escassa no País”. Takahashi imagina a combinação desses sistemas, em
geral de grande porte, aos painéis e mesmo alguns elementos em
madeira, material que ele diz ser insubstituível em qualidade do
concreto. “Até mesmo o travamento dos painéis, as gravatas, poderiam
passar a ser metálicas, preservando apenas o painel de compensado
plastificado.” Outros itens, como o barroteamento, também poderiam ser
metálicos ou, como alternativa, em madeira mais resistente. A vantagem
seria a maior durabilidade do conjunto, possibilitando maior número de
reaproveitamentos, ainda que à custa de certo encarecimento inicial.
Sotaque austríaco
Pioneira entre as empresas estrangeiras a
aportar no Brasil, a austríaca Doka (do grupo Umdasch) chegou quase no
final do milagre brasileiro, época em que seu sistema de fôrmas com
painéis estruturados em vigas metálicas e de madeira participaram da
construção de Itaipu e de outras estruturas de grande porte. A
empresa, uma das cinco maiores do mundo em fôrmas, está trazendo
inovações como os painéis de 3 m de altura com apenas dois níveis de
ancoragem, lançados aqui em 1996. O sistema foi utilizado na
hidrelétrica de Serra da Mesa, em Goiás, e na ampliação do prédio de
laminação da Usiminas de Ipatinga-MG. De grande porte, esse painel
complementa o sistema de mesa voa-dora da Doka, um dos carros-chefes
da empresa, e o de fôrmas de grandes áreas para paredes. O sistema é
inteiramente estruturado em aço, com vigas e painéis metálicos que
podem ser aplicados em sistema trepante para execução de pilares de
grandes dimensões, e seguem à frente da laje, erguendo o núcleo da
obra-de-arte, por exemplo, antes dos tabuleiros. Segundo Günter
Leitner, gerentegeral da Doka, o sistema está sendo empregado na
primeira ponte estaiada brasileira, sobre o rio Paranaíba, na divisa
dos Estados de Mato Grosso do Sul e Minas Gerais, com construção a
cargo da Queiroz Galvão.
O sistema ali é alugado, forma adotada em 93%
dos negócios realizados pela Doka em 1996, índice que caiu para 80%
neste ano, possivelmente devido à estabilidade econômica do País. A
locação – forma de pagamento responsável por mais de 60% dos negócios
nessa área no Brasil – custa mensalmente, no caso da Doka, 6% do valor
do equipamento e inclui no pacote, assim como em outras empresas do
segmento, projeto e assistência técnica na montagem. Na ponte do rio
Paranaíba, com 662,7 m de extensão, pilares de 97 m de altura e
tabuleiro com 16 m de largura, a Queiroz Galvão nadou contra a
corrente – em obras pesadas, como pontes e barragens, a maio-ria
prefere adquirir o equipamento. A Queiroz, no entanto, optou por
alugar o sistema de torres trepantes da Doka e pagará, por isso, quase
o dobro do valor do equipamento comprado à vista, segundo Leitner. Na
ponte, o sistema de fôrmas trepantes permite que os pilares (vazios
internamente e com seções iniciais de 4,70 m por 3 m, diminuindo à
medida que sobem) sejam feitos com regulagem das emendas dos painéis,
acompanhando essa variação dimensional. “O projeto precisa ser
bem-pensado; imagine a falta de praticidade se precisasse descer a
fôrma de uma altura de 70 m para modificações”, compara Leitner. Esse
sistema, devido ao seu peso elevado, necessita de guindastes e gruas
para movimentação, mas propicia produtividade e qualidade elevadas,
conforme o engenheiro Paulo Celestino, responsável pela obra da
Queiroz Galvão. A Doka possui ainda um sistema de fôrmas leves, para
edificações, e está lançando uma versão atualizada de seu sistema de
fôrmas voadoras, com todas as peças de acoplamento embutidas e que
permite utilização em torres de até 90 m de altura.
Tecnologia alemã
A maioria (60%) das cinco empresas de fôrmas que
chegaram ao país entre 1996 e o início de 1997 é de origem alemã, país
de grande tradição nesse segmento. A Peri Fôrmas e Escoramentos,
fundada há 28 anos, chegou no início de 1997, montou sua base no Capão
Redondo, bairro da zona sul paulistana, e ali ancorou cerca de 25 mil
peças que integram seus sistemas leves e pesados de fôrmas e
escoramento reutilizáveis. O equipamento é vendido, alugado ou
comer-cializado de acordo com a necessidade dos clien-tes. “Alugamos e
vendemos, à vista ou parcelado, com opção de recompra”, destaca Jonny
Altstadt, gerentegeral da Peri.
Esse estoque considerável de peças importadas
permite à empresa oferecer desde uma treliça básica em madeira, em
diversos tamanhos, aos inúmeros acessórios que proporcionam rigidez
aos painéis, sempre travados com peças metálicas e que formam quase um
jogo de montar. Para paredes e pilares, o sistema de painéis de chapas
compensadas finlandesas, com treliças e longarinas metálicas, pode ser
utilizadotambém em estruturas curvas, graças à regulagem permitida
pelos componentes metálicos – pinos posicionados no meio das peças
fornecem o grau desejado, apenas com ajustes. O construtor dispõe
ainda de sistema para lajes (também montado com treliças metálicas) e
outro de painéis, com dimensões específicas para cada caso, com quatro
medidas distintas, cujo módulo-padrão é 150 x 75 cm (com variação de
75 cm em 75 cm), com possibilidade de utilizar mão francesa para
travamento, em vez de tirantes. Esse sistema está sendo empregado pela
construtora BKO na obra de ampliação da Faculdade Santana, em São
Paulo, um edifício de dez pavimentos com 22 mil m2 de área construída
no total e 2,2 mil m2 de área de laje nos pavimentos-tipo. Com
cronograma apertado – a obra começou em março e deve terminar em
janeiro de 1998 –, a solução para a estrutura de porte avantajado (90%
dos pilares têm 80 x 80 cm e vigas com 90 x 30 cm) foi recorrer a um
sistema de fôrmas completo para lajes, pilares e vigas. Além da
rapidez na desforma, a obra pôde exibir ótimo acabamento, limpeza e
facilidade de trânsito da equipe. As dificuldades detectadas pela BKO
correram por conta de um certo “choque cultural” entre a rígida
filosofia alemã de projeto e execução, que pressupõe precisão quase
milimétrica, e a cultura brasileira nessa área, bem menos rigorosa.
Este é, aliás, um ponto importante a ser observado por engenheiros e
construtores nessa etapa de incorporação de tecnologia. Os problemas,
segundo o engenheiro Maurício Bianchi, diretor técnico da BKO,
ocorreram no início dos trabalhos, durante a execução dos dois
subsolos, e concentraram-se especialmente nos encontros de pilares e
vigas. “Esses encontros não foram bem-resolvidos no projeto de fôrmas
e deram trabalho para solucioná-los, diminuindo a produtividade
inicial, além de certa dificuldade inerente ao novo processo para as
equipes.” Por isso, a produtividade sugerida pela Peri, em torno de
0,30 homem/hora/m2, que seria excelente para padrões brasileiros,
esteve um pouco abaixo da média nacional. Segundo o engenheiro Marco
Antonio Canaes, gerente de Obras da BKO, uma vez solucionadas as
dificuldades iniciais a produtividade alcança hoje 1,5 h/h/m2, com
tendência a subir mais na confecção das lajes-tipo, que favorecem a
produção pela repetitividade.
Para a guerra que se anuncia, o arsenal da Peri
é vasto: sistemas leves (painéis de 70 kg e de 40 kg), que dispensam
equipamento; fôrmas contínuas de até 8,10 m, em painéis de alumínio;
fôrmas metálicas para colunas circulares; mísulas que aceitam qualquer
tipo de painel e trabalham em três níveis (o de trabalho, outro para
apertar/tirar tirantes e acessórios e um erceiro para movimentação);
fôrmas trepantes e auto-tre-pantes.
Na obra do parque aquático Wet’n Wild de
Vinhedo-SP, em execução pela Método Engenharia, o sistema de fôrmas
empregado nas piscinas veio com detalhes como oswater-stops (ou
corta-água de silicone, por onde passam os tirantes), que impedem
aentrada de água nas estruturas. Já na execução do túnel de pressão da
hidrelétrica deSerra da Mesa, a Peri forneceu uma fôrma deslizante
metálica com 9 m de diâmetropor 6 m de comprimento. A peça única
exigiu guias metálicas perfuradas narocha e, sobre elas, um trilho.
Dessa maneira, a fôrma pôde deslizar milimetricamentepelo invert
(parte inferior do túnel), transferindo essa precisão para
aconcretagem. “Trouxemos essa tecnologia das minas de carvão da
Alemanha efizemos70 m de túneis para três turbinas”, explica Altstad.
Aposta na qualidade
No Brasil desde março, a alemã Meva também
recebe peças importadas de seu país de origem. A tecnologia da empresa
baseia-se em fôrmas com estrutura e chapas decontato em alumínio ou,
opcionalmente, em compensado de madeira com gramaturaefilme de
revestimento bastante robustos, produzidos pela finlandesa Shauman,
líder nessa área. “Utilizamos chapas finlandesas com revestimentode
até 420 g/m2 de espessura, o que permite até 50 reutilizações”, afirma
o engenheiro Carlos Baümler, diretor da Meva no Brasil. A empresa está
trazendo seu sistema patenteado de fechos metálicos, extremamente
simples de ajustar e unir os painéis. Por meio de cinco pontos de
contato e com poucos golpes de martelo, o fecho permite solidarizar
com grande precisão as fôrmas, que têm moldura em aço ou alumínio,
sempre em perfis fechados com canaletas, propiciando painéis
resistentes à torção e maior segurança na movimentação de fôrmas em
grandes conjuntos.
A tecnologia recorre a detalhes como a presença
de duas ou três travessas horizontais com porcas soldadas internamente
para facilitar diversos acoplamentos necessários em obras, como
andaimes de trabalho ou escoras laterais, por exemplo. Todas as
conexões, segundo Baümler, são feitas com um único parafuso com
flange. O objetivo da Meva é desenvolver fornecedores brasileiros para
nacionalizar a produção de componentes – ao menos parte dos cerca de
33 mil itens que possui em seu catálogo. A aposta no mercado
brasileiro ocorre mesmo diante da resistência a produtos com custo
inicial mais alto. “Verificamos que as empresas que estão entrando em
programas da qualidade são as mais interessadas em produtos do nível
dos nossos”, observa Baümler.
Experiência local
Diferentemente de suas concorrentes, a Ulma
espanhola e a Noe alemã ingressaram no País associando-se a parceiros
brasileiros, providência que garante, no mínimo, maior familiaridade
com os costumes locais. A Ulma, líder mundial em escoramento e
originária da pequena Oñati (10 mil habitantes), no norte espanhol,
buscou profissionais brasileiros da área de fôrmas e escoramentos
antes de trazer seus sistemas. De olho no segmento de edificações,
inicialmente a ênfase foi dada ao sistema de fôrmas recuperáveis com
escoramento metálico, específico para lajes planas. Leve (31 kg), o
sistema espanhol é modular (dimensão básica de 1 m x 0,50 m), tem
poucos acessórios (duas longarinas e um cabeçal com cunha,
recuperável, unidas por outra longarina secundária) e recebe painéis
modulares, formados por três camadas de pinus finlandeses, com 27 mm
de espessura total. O sistema foi pensado para apoiar os painéis, sem
parafusos ou pregos. Na desforma, basta soltar a cunha e retirar todas
as peças secundárias e a superfície de contato; a longarina principal
permanece apoian-do a laje que, assim, não é submetida a esforços. “A
vantagem desse processo é que se pode desformar em até 72 horas,
recuperando 70% das peças componentes”, explica Luiz Antônio Corrêa,
diretor da Ulma no Brasil.
Após longa tradição de uso de fôrmas
pré-fabricadas de madeira, a construtora baiana Suarez decidiu
experimentar o sistema para lajes planas da Ulma em uma obra de 19
pavimentos (com 295 m2 de laje cada) situada em bairro central de São
Paulo. O custo atraente do sistema e a promessa de produtividade
elevada foram os atrativos para a construtora alugar o equipamento,
segundo o engenheiro Marcelino Machado, gerente de Desenvolvimento de
Tecnologia da Suarez. “Pelos nossos cálculos, é mais barato comprar,
embora no primeiro momento seja mais caro. Com uso acima de dez meses,
o equipamento já se paga”, diz Machado.
No Brasil, a produtividade admitida para fôrmas
gira em torno de 2 homem/h/m2, embora muitos afirmem que metade disso
possa ser conseguido. Quase todos os sistemas que estão chegando
prometem produtividade bastante acima dessa marca. Na prática, pouco
se averiguou com esses novos equipamentos.
A SH , por exemplo, aposta na simplicidade do
sistema de fôrmas para lajes compostas por estrutura em alumínio,
forrada com compensado plastificado e que permite utilização manual,
com durabilidade de cinco anos na estrutura e produtividade elevada -
0,30 h/h/m2 . Presente no mercado desde 1996, o sistema dispensa mão-
e- obra especializada. O suporte, por exemplo, pesa apenas 2,40 kg,
enquanto o módulo básico do painel com compensado (0,90 m x 0,45 m)
tem 7,10 kg.
A norte- mericana Efco, que instalou seu
escritório virtual em um prédio ao lado do MorumbiShopping, na zona
sul paulistana, e um depósito em Cotia-SP, também promete alta
produtividade com seus painéis equipados com tensores metálicos,
permitindo alinhamentos e prumos muito rígidos. O sistema
norte-americano também oferece detalhes construtivos como os
water-stops e painéis manuais leves com faces de contato metálicas;
estes ainda podem ser enrijecidos com vigas metálicas e utilizados em
obras maiores, com gruas. Na mesma linha das concorrentes européias, a
Efco produz suas peças de forma automatizada, com robôs nas linhas de
produção em Des Moines (EUA), Venezuela e Inglaterra. “Devido à
qualidade, nossos equipamentos permitem mais de 200 reutilizações,
desde que com cuidados na desforma e manutenção nas obras”, afirma o
engenheiro José Brun Filho, gerente de Vendas da Efco no Brasil.
Madeira x alemães
Sem tanto alarde em torno do número de
reutilizações, mas com a vantagem de anos de bagagem na construção
civil brasileira, os fabricantes e montadores de fôrmas pré- abricadas
de madeira também oferecem inovações. A Pashal, por exemplo, passou já
há algum tempo a adotar em seus sistemas chapas de compensado
revestidas com material fenólico, estruturadas em aço zincado para
evitar corrosão. A tecnologia original, alemã, está 100% nacionalizada
e oferece know-how próprio, com desenvolvimento de andaimes
autoelevatórios, por exemplo, empregados em obras do porte do Fórum
Trabalhista de São Paulo. Segundo Caio de Sá Yarid, diretor da
empresa, a Pashal investe também no atendimento aos clientes, fazendo
uma pesquisa para aferir os seus pontos fracos, enquanto prepara os
processos para obter a ISO 9001.
A Pratika, cujo diretor Nelson Kawall já ocupa
parte da história brasileira de fôrmas, segmento em que atua há quase
50 anos, adotou a terceirização da produção e dedica-se apenas à
comercialização das fôrmas prontas de madeira. “As fôrmas prontas de
madeira têm seu espaço. As metálicas não conseguem atender
determinados andares, como os chamados atípicos, as coberturas e os
muito recortados”, afirma Kawall. O melhor exemplo dessa tese é o
Memorial da América Latina, uma das obras singulares erguidas com o
sistema da empresa. A Ghetal, outra das brasileiras a atuar na área de
fôrmas com tecnologia desenvolvida para dar racionalidade às obras,
dispõe de fôrmas modulares para paredes e pilares, produzidas com
madeira compensada e plastificada e estruturadas por tubos metálicos.
O sistema, segundo o engenheiro Antônio Carlos Boin, gerente Técnico
da empresa, permite cerca de 300 usos. Além disso, a Ghetal também
investiu no desenvolvimento de sistema de fôrmas para produzir paredes
autoportantes ou de vedação com concreto celular. De acordo com Boin,
este é um sistema capaz de oferecer até 150 reutilizações, com a
vantagem de dispensar equipamentos. “O sistema permite também embutir
as instalações, propiciando maior produtividade.” Já a Mills,
conhecida por seus escoramentos metálicos, preferiu buscar tecnologia
da Noe alemã. “Há algumtempo sentimos que o mercado mundial de fôrmas
passou a utilizar, cada vez mais intensamente, painéis estruturados em
metal combinados ao compensado na área de contato com o concreto”,
afirma o diretor Ramon Vazquez Por isso, a Mills esperou a
estabilização econômica e o avanço das privatizações para prospectar
parceiros europeus. Inicialmente importando equipamentos da Alemanha
(o primeiro carregamento chegou no final de julho), a Mills já negocia
com parceiros brasileiros a fabricação das peças aqui. O primeiro alvo
da nacionalização é o sistema leve (peso de 30 kg/m2, modulação básica
de 0,75 m x 1,50 m, compensado finlandês da Shauman com espessura de
21 mm e filme de cobertura de 220 g/m2). Com ele, a empresa promete
entre 50 e 70 reutilizações, “algo que não existe no Brasil”, segundo
Vazquez.
Como nos demais concorrentes, a linha de
acessórios prima pelasimplicidade, com dois tipos de garras de aço
fundido que funcionam por pressão, solidarizando e posicionando os
painéis. Segundo o diretor da Mills, a tecnologia dos sistemas permite
que, com apenas duas peças – os tirantes e um filler de extensão das
placas – possam ser atendidas cerca de 80% das solicitações. A Mills
está trazendo também painéis para grandes superfí-cies, com dimensões
de até 2,65 m x 2,65 m e garras que permitem qualquer tipo de ângulo;
um sistema que propicia executar, após a concretagem do poço do
elevador, outra concretagem sem desconectar os painéis – eles se
“acoplam”, permitindo transporte de todas as peças juntas. Antes de
trazer a tecnologia ao Brasil, a Mills enviou cinco engenheiros para
estagiar na Alemanha, entre eles o gerente técnico Sylvio Ennes, que
explica a filosofia da empresa de adotar a locação dos equipamentos
por empreitada global (em vez de locar por m2 de fôrma), como uma
aposta na parceria e na tecnologia da Noe. “Na Alemanha, a
produtividade alcança 0,32 h/h/m2, incluindo montagem, desmontagem e
limpeza.”
PLANEJAMENTO, A DIFERENÇA ESSENCIAL
O engenheiro e professor Ubiraci Espinelli L. de
Souza, da Poli-USP, desenvolveu durante cerca de três anos um estudo
na Pennsylvania State University para investigar, em pequenas e médias
empresas, a produtividade da mão-de-obra relacionada a diversos
fatores. Nesse trabalho, os sistemas de fôrmas foram eleitos para
pesquisa por ser altamente consumidores de horas/homem e ter peso
importante no custo final da obra. O estudo conclui que a estrutura é
responsável por algo entre 20% e 25% do custo da edificação; as fôrmas
custam entre 10% e 12% do total da obra e a mão-de- bra para
montá-las, metade desse percentual. No Brasil, a metodologia
desenvolvida pelo professor foi aplicada em cinco obras paulistas
(quatro na capital e uma no litoral), permitindo verificar que a
produtividade poderia ser seis vezes maior (ou duas vezes pior, na
hipótese pessimista) em função do sistema de fôrmas utilizado e,
principalmente, do planejamento da obra. De forma simplificada, Souza
explica que a pesquisa adotou, como referência de produtividade,
números colhidos nas próprias obras (que são semelhantes entre si) nos
chamados “dias bons” de produção. Mas o grande problema eram os dias
“piores”, quando o índice despencava para a “hipótese pessimista”.
Nesses dias, a pesquisa mostrou haver falta de planejamento da obra,
com equipes maldimensionadas (excesso ou falta de pessoal), falta de
material e negociações mal conduzidas com subempreiteiras, resultando
em paralisação para discussão de valores de contratos, entre outros
empecilhos. Tanto quanto o sistema de fôrmas, o planejamento da
produção, diz Souza, pode ser o diferencial entre uma obra com grande
produtividade e outra, mal conduzida, com índices irregulares e perda
financeira no final do trabalho.
MOLDE DE PVC
A associação de três empresas resultou numa
fôrma à base de PVC expandido, totalmente compacta, com densidade de
cerca de 0,7 g/cm3, a metade do 1,4 g/cm3 da madeira compensada, e com
trabalhabilidade idêntica, segundo o engenheiro Antônio Acetoze,
responsável pela área de Desenvolvimento e Mercado da Trikem, empresa
do grupo Odebrecht. A partir da matéria-prima da Trikem, a Tigre
desenvolveu as chapas de PVC para as fôrmas, com dimensão de 1 m x 2
m, 13 mm de espessura e custo cerca de três vezes e meia superior à
dos painéis com compensado.
O reaproveitamento das chapas de PVC compensa a
partir de 20 reutilizações, explica o engenheiro Waldemar Furlanetto,
responsável pelo Programa de Qualidade da CNO (Construtora Norberto
Odebrecht) nas obras do Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro. As
fôrmas de PVC foram utilizadas ali 28 vezes, enquanto na barragem de
Igarapava (foto), na divisa de São Paulo com Minas Gerais, foram 32
reutilizações. “Poderíamos utilizar as chapas de PVC pelo menos o
dobro de vezes, mas os demais materiais não resistiram”, diz
Furlanetto. Segundo ele, o custo das fôrmas com PVC está em R$ 43,40/m2,
enquanto a de compensado gira em torno de R$ 16,00. Mas o mercado
consumidor dessa tecnol-o-gia promete crescer. Isso explicaria o
interesse da espanhola Ulma em trazer o sistema com fôrmas em PVC para
lajes nervuradas (chamadas de “cubetas”).