Um dos modais mais importantes para a indústria e a
logística no Brasil, o transporte marítimo ainda não tem todo o seu
potencial devidamente utilizado. Sua importância está diretamente
ligada a intermodalidade, à geração de novos empregos, ao aumento na
movimentação de cargas no país e ao fortalecimento do setor de
logística no mercado nacional. Apesar de todas as dificuldades que
enfrenta - com portos ainda inadequados, burocracia e altas tarifas,
para citar apenas algumas - o setor movimenta mais de 350 milhões de
toneladas ao ano. Fica fácil imaginar o quanto este número pode
melhorar se houver uma preocupação e um trabalho efetivos para alterar
este quadro.
É triste explicar como um país cujo litoral é de
9.198 km e que possui uma rede hidroviária enorme, ainda não explore
adequadamente o transporte marítimo. É óbvio que o investimento
necessário para otimizar e modernizar este sistema é grande e que a
movimentação de cargas por ele não tem a mesma velocidade do
transporte aéreo ou ferroviário. Mas são 16 portos com boa capacidade,
com destaque para os de Santos (SP), Itajaí (SC), Rio de Janeiro (RJ),
Porto Alegre (RS), Paranaguá (PR) e Vitória (ES). Existem ainda duas
hidrovias para o transporte fluvial no interior do Brasil e com os
países vizinhos do sul e sudeste (as hidrovias Paraná-Paraguai e
Tietê-Paraná). Então, fazer o setor, responsável por 11,72% do
movimento de carga registrado no país, crescer é difícil, mas não
impossível.
O número de empregos gerados seria fator
determinante para a diminuição da pobreza no país.
Quantos postos de trabalho seriam criados com a
ampliação da indústria naval, com o aumento nas empresas de
transporte, com os novos postos de fiscalização e controle, com a
indústria de peças, com novos fornecedores, com a ampliação de
mão-de-obra nos portos? É uma verdadeira bola de neve, que não iria
parar de crescer. Dados do Governo Federal mostram que em 1999, o país
tinha 44 portos, operados por cerca de 62 mil trabalhadores. Com um
investimento sério no transporte marítimo, estes números poderiam
alcançar patamares excelentes. Uma análise superficial pode apontar
para, pelo menos, a duplicação destas vagas.
O modal aquaviário é fundamental para promover e
integrar o país interna e externamente. Afinal, são oito bacias com 48
mil km de rios navegáveis, reunindo, pelo menos, 16 hidrovias e 20
portos fluviais. Entre 1998 e 2000, 69 milhões de toneladas foram
movimentadas. Modernizado e adequado às exigências de um mundo
globalizado, o transporte marítimo pode diminuir distâncias internas e
ser decisivo na consolidação do Mercosul, além de aumentar o comércio
com os demais continentes.
Outro grave problema em relação aos portos é o
custo de embarque por contêiner. Apesar de ter diminuído em quase US$
300, o valor ainda é muito alto comparando-se aos portos estrangeiros.
Há muita burocracia e os portos nacionais ainda não têm o mesmo
preparo que os europeus ou asiáticos. Falta preparo e maiores
investimentos para suportar um aumento significativo nas exportações.
O Governo demonstra preocupação com o setor de
transportes, tendo iniciado uma reestruturação, quando foram criados o
Conselho Nacional de Integração de Políticas de Transporte (Conit), o
Departamento Nacional de Infra-estrutura de Transportes (DNIT), a
Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ) e a Agência
Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Mas ainda é pouco, já que o
país permanece atado à malha viária como principal meio de escoamento
da produção. Muito mais precisa ser feito, já que as possibilidades de
crescimento, em todos os sentidos, são imensas e o transporte
multimodal segue em ritmos muito lento. Somente usando várias formas
de transporte, com custos reduzidos, menor tempo para deslocar as
cargas poderão diminuir preços, fortalecendo o consumo interno e
fomentando mais exportações.
Possuir uma frota mercante de real poder é
questão não só de desenvolvimento social e comercial mas, também, de
segurança e estratégia. Se não há como fazer girar o seu comércio por
falta de navios, o Brasil fica à deriva, guiado por empresas
estrangeiras. Em termos de segurança, a frota se torna um apoio
fundamental para a Marinha de Guerra em caso de necessidade. Inúmeros
exemplos, como a Guerra do Golfo, onde a navegação civil ajudou no
conflito, ilustram isso.
Para o setor da logística, o transporte marítimo
também significa crescimento. É um mercado muito grande e praticamente
virgem, se considerarmos a magnitude do potencial brasileiro. Há muito
o que se fazer nos portos e nos elos de ligação com o transporte
rodoviário e ferroviário. Pode-se imaginar uma variada gama de opções
para os profissionais da logística atuarem. Quer seja diretamente nos
portos, nas empresas marítimas, de armazenamento ou junto às
transportadoras dos outros modais.
Os números mostram que o transporte marítimo é o
famoso gigante adormecido. Em 2000, portos fluviais, lacustres e
marítimos foram responsáveis pela movimentação de 460 milhões de
toneladas de carga. Um ano antes, o setor hidroviário teve 13,8% de
participação no transporte nacional, ficando atrás das ferrovias
(19,5%) e das estradas (61,8%). Em 1985, as hidrovias movimentaram
18,3%, contra 23,6% do setor ferroviário e 53,6% do rodoviário.
Nota-se aí que a utilização do setor marítimo está diminuindo. Ou
seja, postos de trabalho estão sendo fechados e o prejuízo ganha
escala global dentro da economia brasileira. Como se não bastasse o
problema social, há ainda a sobrecarga na malha viária, cujas
condições são cada vez piores graças ao aumento no tráfego de
caminhões, algo que amplia os índices de acidentes e mortes em nossas
estradas.