Antes de começar a ler este artigo, bata três vezes na madeira.
Erros profissionais não estão nos planos de
ninguém. Ninguém imagina que possa errar um pênalti, muito menos se
esse pênalti for na partida final do campeonato. Mas isso é coisa que
acontece e, nessas horas, alguns conceitos de marketing são remédios
muito mais eficazes do que desespero e fuga.
No dia 31 de outubro de 1996, às 8 horas da
manhã, um avião da TAM caiu, 25 segundos depois de decolar do
aeroporto de Congonhas, em São Paulo.
O acidente, no qual morreram 98 pessoas, tinha
todos os ingredientes para quebrar a empresa. Além da gravidade em si,
do número de vítimas e dos danos materiais causados, era um desastre
que caía como uma luva para os interesses da concorrência e de outras
empresas interessadas em se aproveitar comercialmente da situação.
Seria, enfim, um desastre completo.
Seria! Seria um desastre completo se o
Comandante Rolim (presidente da companhia à época. Falecido em 2001) e
sua equipe não estivessem preparados para enfrentar aquela situação.
Eles agiram de forma rápida, tomando
providências simples, posicionando claramente a empresa e solucionando
os problemas possíveis. Sabiam, por exemplo, que os parentes das
vítimas seriam apresentados na televisão, chorando, mostrando a
fotografia do parente morto e culpando alguém pelo “crime”. Por isso,
prontamente eles “recolheram” o máximo de parentes que puderam em um
hotel de luxo, com médicos, enfermeiros e psicólogos. Com isso eles
mataram dois coelhos com uma só cajadada: providenciaram o atendimento
às vítimas (os parentes também são vítimas) e evitaram todo o
terrorismo que teria sido feito na televisão se os parentes ficassem
“soltos”.
Em momento algum deixaram de informar à imprensa
sobre o que estava acontecendo. Todas as ações foram rápidas e
coordenadas. Parece até que eles estavam treinados para enfrentar uma
catástrofe daquela envergadura.
Parece? É claro que estavam treinados! Uma
empresa cuja atividade convive diariamente com o risco de acidentes
graves precisa estar preparada para administrar os problemas causados
por acidentes graves. Muita gente elogiou o comportamento da TAM
naquele episódio. Eu mesmo acho que eles foram ótimos. Conseguiram
reduzir ao mínimo as conseqüências inevitáveis do acidente.
Mas não foi, como muita gente quis dizer, puro
feeling. Pura intuição de marketing do Comandante Rolim (até porque
ele não estava no Brasil no momento do acidente e só voltou no dia
seguinte).
Foi, antes de tudo, uma manifestação de
competência, de preparo e de planejamento. A empresa agiu rápida e
eficientemente porque estava “esperando” que coisas desse tipo
acontecessem. Os procedimentos já estavam previstos.
E, justiça seja feita, se o acidente tivesse
ocorrido com qualquer uma das outras grandes companhias de aviação, o
comportamento, provavelmente seria o mesmo. Isto está nos manuais de
condução de crises que todas as grandes empresas têm.
Esta é a lição que nós devemos tirar daquele
lamentável acidente. Se você é prestador de serviços, você precisa ter
consciência de que alguma coisa pode um dia sair errado. E você
precisa pensar nessas coisas bem antes que elas aconteçam. Com a
cabeça fria para fazer o melhor planejamento possível.
Qual é o arquiteto que deseja descobrir, com a
obra em andamento e a concretagem programada para o dia seguinte, que
uma determinada escada, por erro do projeto, não permite a passagem,
em pé, de uma pessoa com mais de 1,70m.
Qual é o engenheiro civil que gostaria de ver
uma obra construída por ele, cair três meses depois de concluída.
Qual engenheiro eletricista quer ver uma
indústria com todas as suas máquinas paradas por uma semana, porque
houve um erro no cálculo do dispositivo de proteção e os
transformadores queimaram.
Durante a carreira profissional de um engenheiro
ou de um arquiteto, problemas podem ocorrer. Erros podem ser
cometidos. Alguns menores, com pequenas conseqüências. Outros,
maiores, potencialmente destruidores de uma carreira. É óbvio que
esses problemas não são desejados. Mas eles precisam ser previstos. Na
hora de um problema você precisa ter claro algumas considerações sobre
marketing e precisa saber com certa precisão o que fazer ou que
postura assumir.
Vamos sugerir alguns comportamentos e
procedimentos que poderão ser úteis para a minimização de um problema.
Lembre-se: esses procedimentos e comportamentos precisam estar
introjetados em você. Não se trata de “sofrer por antecipação”.
Trata-se de estar preparado para administrar as conseqüências de um
erro profissional. Trata-se, também, de fazer as coisas certas desde o
início, evitando assim que um eventual erro profissional se transforme
num desastre.
1. Não saia por aí dizendo que você não tem culpa de nada. Que você
fez tudo certo. Que você está coberto de razão. Mas também não saia
assumindo a culpa pelo problema, a menos que você tenha certeza
absoluta de que o problema foi gerado por um erro seu. Muitas vezes
aquilo que parece óbvio não é tão óbvio assim. Não custa nada esperar
um pouquinho antes de manifestar alguma conclusão. No entanto, desde o
primeiro momento, você deve mostrar-se disposto a aceitar que o erro
foi seu, desde que isso seja demonstrado.
2. Não fuja do campo de batalha. Apresente-se no local do problema.
Muitas vezes a vítima (o cliente) não quer a reparação financeira pelo
estrago causado. Ele só quer ter alguém em quem possa colocar a culpa.
Ele quer que você veja a cara dele diante daquele desastre. Nessas
horas, deixar de atender o telefone ou sair da cidade é a maneira mais
simples de amplificar o tamanho do problema. Além disso, as pessoas
têm um natural constrangimento de dizer “verdades” quando estão na
presença do principal atingido. Assim, se você estiver no local, já
reduz bastante o falatório;
3. Não tenha a ilusão de que vai eliminar todo o problema,
utilizando técnicas de marketing e de relacionamento. Muitas vezes
você precisa, além de reconhecer o erro, assumir as conseqüências
financeiras que o problema traz. Nesses casos convém, antes de fazer o
contrato, fazer uma análise de riscos e incluir cláusulas que tratem
do assunto.
Em alguns casos, faça seguro. O seguro contra
danos materiais causados por erros profissionais, além de aumentar a
sua segurança, pode ser uma boa propaganda da sua empresa.